VOIX na Singularity University

Marcos Linhares e Peter Diamondis, cofundador da Singularity University | Foto: Arquivo pessoal do Marco Linhares.

Criada pelo Google e pela NASA, a Singularity University é o sonho dos mais respeitados cientistas, professores e mentes criativas do mundo. A universidade foi fundada em 2009, por Peter Diamandis e Ray Kurzweil, e rapidamente tornou-se sinônimo de educação executiva inovadora, ao oferecer cursos e palestras sobre a “transformação digital” e o futuro de várias áreas.

Uma das iniciativas da Singularity University é o Global Startup Program (GSP), que foi totalmente repaginado em 2018 e apresentado em 2019 como um programa para startups que buscam impactar globalmente com ideias radicais. Esta edição conta com 47 participantes de 19 países, sendo 14 brasileiros. Entre eles está Marco Antônio Linhares, fundador e CEO da VOIX.

Por meio de jogos e realidade virtual, a VOIX ajuda educadores a trabalhar temas sobre a aceitação da diversidade, como racismo, igualdade de gênero, cyberbullying e obesidade, desenvolvendo nos alunos as competências do futuro: autoconhecimento, autogestão, comunicação, empatia, dentre outras. O objetivo é combater preconceitos e reduzir a incidência de bullying. Na entrevista abaixo, Marco Linhares conta um pouco mais sobre o assunto. Confira!

Prédio da Singularity University dentro da NASA | Foto: Arquivo pessoal do Marco Linhares.

Poderia contar um pouco sobre sua formação e trajetória profissionais?

Sou formado em engenharia e ciência da computação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Fui professor de matemática durante quase três anos, quando dei aulas em um projeto de extensão da Unicamp.

Você vivenciou alguma experiência de bullying ou preconceito, seja na infância ou na vida adulta? Se sim, como ela contribuiu com a criação da VOIX?

Sim, sofri bullying quando era novo e vi o quanto de estrago isso pode fazer na vida de uma pessoa. Porém, o maior motivo de inspiração na criação da startup foram as aulas de matemática que dei em um projeto de extensão da Unicamp por quase três anos. Eram aulas de reforço para alunos de colégios públicos. Desta vivência pude notar que parte desses alunos sofria pressão pela condição social deles.

Baixa autoestima, pressão dos pais para passar no vestibular rápido e trazer alguma renda para a família e a própria condição social limitava os seus sonhos e aonde acreditavam que poderiam chegar. Todo esse contexto acabava tendo grande peso nas decisões deles de curto prazo. Comecei, então, a estudar metodologias para aumentar a autoestima dos alunos e desenvolver o seu propósito. Comecei então o que eu chamei de “aulas para sonhar grande”. Essas aulas acabaram transformando-se em um projeto para combater preconceitos, bullying e despertar o potencial dos alunos para terem uma vida extraordinária.

E como foi esse insight que resultou na VOIX?

O insight veio quando eu participei do programa Apple Developer Academy. Durante o programa, eles fizeram uma parceria com um Instituto de Pesquisas na Suíça e eu fui selecionado para passar 3 semanas lá estudando a igualdade de gênero em empresas de tecnologia. Nesse período, desenvolvi um aplicativo para empresas que queriam contratar mais mulheres. O app consistia em um teste para entender o perfil dos colaboradores em relação à diversidade.

O teste acabou não dando muito certo pois as pessoas acabavam respondendo o que era mais socialmente aceito, independente da sua opinião. Saí do programa com a ideia de aplicar esse teste em uma fase de vida em que as pessoas ainda estão construindo os seus valores. E daí veio a ideia de trabalhar com escolas. E para trabalhar os temas do teste, tive a ideia de criar um jogo e então começou o processo de pensar em como seria o jogo: competitivo ou colaborativo e qual era a melhor mecânica para a partida. Depois de testar mais de 50 jogos, fui percebendo o que fazia mais sentido e desenvolvi uma mecânica que estimula a discussão utilizando um tabuleiro, cartas e um aplicativo.

O que percebo é uma tendência do ser humano de estar em grupos, mas a gente não sabe que ao fazer brincadeiras pode estar gerando o mal. A ideia do jogo é criar empatia, aumentando a tolerância dos alunos e diminuindo a incidência de bullying, para gerar mais consciência e respeito ao próximo.

Por que você decidiu se aplicar para participar do Global Startup Program na Singularity University?

Eu conheci uma pessoa de Campinas que fez o programa e decidi pesquisar mais a respeito. Achei sensacional a ideia de juntar várias pessoas do mundo inteiro para resolver os maiores problemas da humanidade, ainda por cima fazendo isso dentro da NASA! Por isso, resolvi me candidatar, mesmo achando que não tinha chance alguma.

Como foi o processo de seleção para a VOIX participar do programa?

Fiz a inscrição em novembro do ano passado, respondendo a uma série de perguntas e gravando um áudio. Tive que falar sobre o estágio atual da empresa, experiências anteriores com outras startups, se eu já tinha conseguido captar dinheiro para algum projeto e o porquê de eu querer participar do programa.

O resultado saiu em janeiro deste ano. Mesmo hoje, ainda é difícil acreditar como me escolheram dentre tantas pessoas com projetos tão incríveis. Acredito que passei por conta do meu histórico trabalhando no desenvolvimento de comunidades e porque quero levar a VOIX para outro patamar, colocando nossa solução em todos os cantos do planeta. E também, porque de alguma maneira perceberam que eu estaria disposto a fazer o que fosse necessário para alcançar esse objetivo.

Como você conseguiu o valor de USD 30mil para participar desse programa?

No momento da inscrição, ficamos sabendo que o programa tem um custo de 30 mil dólares. Eles nos perguntam quanto temos para pagar. Eu disse que ia vender o carro e poderia pagar $5mil do programa com esse valor. Ao receber a carta de aprovação, fiquei muito feliz, mas também começou o maior desafio da minha vida até então: eles não aceitaram o que propus e me cobraram o valor inteiro. Além disso, eu teria que pagar $10mil dólares em 5 dias e mais $20mil dólares apenas 20 dias depois.

A primeira coisa que fiz foi colocar o carro à venda. Depois, usei minha rede de 7 anos de empreendedorismo da Liga Empreendedora e consegui muita gente da comunidade divulgando e fazendo conexões, mas nada de dinheiro.

Eu achei que seria mais fácil fazer essa captação, que eu iria falar da Singularity University para as empresas e o valor viria facilmente. Mas não foi o que aconteceu. Durante as 3 semanas para o prazo do pagamento, conversei com mais de 80 empresas.

Depois da primeira semana, eu vi que estava mais difícil do que imaginei e abri o crowdfunding. Coloquei o jogo à venda no site da campanha e outros cursos online que tinha a intenção de criar. Fiz uma divulgação bem maior e consegui R$4mil por lá. Na última semana, eu fui em uma escola em São Paulo e consegui R$20mil para desenvolver um jogo para eles, semelhante ao VOIX.

Também peguei parte do valor emprestado com amigos e familiares e “chorei” muito por um desconto com a Singularity. No fim, consegui 5 mil dólares de desconto, diminuindo o valor total para 25 mil dólares.

A única coisa que pensava era: se eu tenho uma chance maior de fazer a VOIX gerar mais impacto por conta da Singularity, vale a pena qualquer sacrifício. Por isso me empenhei tanto para conseguir o valor. Consegui pagar o valor um dia antes do término do prazo. E quase todo o dinheiro só chegou no final da última semana. Foi tudo muito intenso até o dia de pagar.

Leia também: Startup campineira é aprovada na Singularity University

O que aconteceu durante o tempo que você passou na Dinamarca? Quais pontos foram abordados pela Singularity?

O programa é sensacional. Ele é composto de 3 fases, sendo duas presenciais. Em Copenhagen aconteceu a primeira fase presencial. São 4 semanas, com aulas e atividades individuais e em grupo, de segunda a sexta, das 07:30 às 20:00 horas. Nas primeiras duas semanas, aprendemos com os maiores especialistas do mundo a respeito das tecnologias exponenciais e em como o mundo está mudando rapidamente. Tivemos workshops sobre robótica, blockchain, realidade virtual, etc.

O objetivo era desenvolver um moonshot, ou seja, o nosso tiro para a lua: o que queremos ver de melhoria no nosso planeta, focando em impactar 1 bilhão de pessoas nos próximos 10 anos, quantidade essa equivalente a 10% da população global em 2029.

Nas últimas duas semanas, desenvolvemos um plano de ação pensando em como será o futuro e o que teremos desenvolvido em 2029. Com isso, fazemos um trabalho de trás para frente, ou seja, de 2029 até 2019, planejando os próximos passos de curto e médio prazo.

Entrada da Nasa Research Park | Foto: Arquivo pessoal do Marco Linhares.

Quais os próximos passos do programa?

A próxima fase do programa acontece dentro da NASA, no Vale do Silício. Lá será uma fase mais prática. Irei me conectar com mais pessoas e investidores para fazer as parcerias certas para colocar o moonshot em ação. Serão mais 30 dias por lá. Depois dessa fase, teremos mais 9 meses de acompanhamento pela plataforma, com acesso à toda a rede de mais de 60.000 pessoas da Singularity University.

Após o término do programa, o que você espera que aconteça com a VOIX?

Em um ano espero que a VOIX esteja em processo de expansão para o exterior e com o desenvolvimento de produtos mais tecnológicos.

Vista de dentro da NASA | Foto: Arquivo pessoal do Marco Linhares.

Como o ecossistema Campinas Tech tem colaborado com a VOIX?

Em fevereiro, logo após ter saído o resultado da aprovação na Singularity, o Campinas Tech abriu espaço para eu falar sobre a VOIX na reunião geral do ecossistema. Por causa disso, várias portas se abriram e consegui me conectar com muita gente interessada em me ajudar. A primeira reportagem sobre a VOIX foi da própria Campinas Tech e depois saíram outras reportagens pela Globo, Band, TV Unicamp e a revista Pequenas Empresas Grandes Negócios.

A Campinas Tech é um ambiente colaborativo em que as pessoas se ajudam e assim há muito mais chances de as coisas darem certo. Essa é a importância de fortalecer o ecossistema.

A campanha continua aberta e quem tiver interesse em conhecer mais, ajudar financeiramente ou caso conheça escolas que queiram implementar programas para combater o bullying, podem acessar o link da campanha.


Entrevista e texto por:
Ariela Maier, voluntária no Grupo de Trabalho de Comunicação da Campinas Tech.